Quando se fala em transformação digital no setor público, a conversa costuma começar pela área de tecnologia. Ela é indispensável. Mas a transformação também depende de outra liderança: a de quem responde pela política pública e pelo resultado que ela produz na vida das pessoas.
O organograma das organizações modernas nomeia suas funções de liderança com alguma precisão. Há o CEO, o CFO, o CIO. No setor privado a lista cresceu: CDO, CTO, CPO, CHRO. Cada sigla trouxe mandato, orçamento e expectativa. Dar nome a uma função ajuda a organização a enxergar a responsabilidade que ela carrega.
No setor público, a liderança mais decisiva para a entrega de uma política raramente recebe um nome próprio. Propomos chamá-la de CPPO, Chief Public Policy Officer: o executivo de Estado.
O CPPO é a liderança finalística responsável por traduzir diretrizes políticas complexas em estratégias de alto impacto, mobilizando recursos públicos, gerando consenso entre stakeholders e garantindo a entrega efetiva de valor mensurável para a sociedade.
A moeda é o valor público
Enquanto o C-Level privado entrega valor ao acionista, o CPPO entrega valor público: justiça social, segurança, saúde, desenvolvimento sustentável. Por isso não basta gerenciar insumos, como o orçamento, ou produtos, como o número de escolas construídas. O CPPO gerencia desfechos na vida do cidadão, como a redução do analfabetismo. O foco é o outcome, e não apenas o output.
O triângulo estratégico
A literatura de valor público, a partir do trabalho de Mark Moore na Universidade Harvard, descreve três frentes que precisam estar alinhadas para que uma política entregue resultado. O CPPO opera nas três:
- Valor público claramente definido: a visão de futuro sobre onde o Estado quer e precisa chegar.
- Legitimidade e apoio: diálogo com o Legislativo, a sociedade civil e os órgãos de controle. Sem articulação política, no sentido nobre da palavra, a política pública não se sustenta.
- Capacidade operacional: reorganizar a máquina pública, digitalizar processos e quebrar silos para que as coisas aconteçam.
É na capacidade operacional que a transformação digital entra com mais força, e é por isso que ela não é feita só pela TI. A tecnologia amplia o que a máquina consegue fazer; o CPPO garante que essa capacidade esteja a serviço de um valor público definido e legitimado. Explicamos o conceito em detalhe em Valor público e o triângulo estratégico de Mark Moore.
Quem é o CPPO no Estado brasileiro
É a liderança finalística que tem a caneta para decidir a alocação de recursos em grande escala e a responsabilidade direta pela entrega. No Executivo federal, esse perfil costuma estar nos cargos e funções comissionadas executivas de nível mais alto (CCE e FCE, antigos DAS 5 e 6), como secretários nacionais e diretores de programa. Em outras estruturas, está em secretários, superintendentes e diretores que respondem por uma política.
Essa liderança não precisa virar técnica
Há uma reação comum a esse diagnóstico: a de que o gestor finalístico precisa aprender tecnologia. Ele não vai programar nem desenhar arquitetura. O que precisa é de destreza de decisão, e isso se ensina:
- Declarar um problema em termos de desfecho esperado, e não de funcionalidade desejada.
- Reconhecer quando um problema tem solução conhecida e quando é emergente, pedindo experimentação antes de compromisso.
- Priorizar por valor público e risco, e não pela urgência do momento.
- Entender o que a inteligência artificial faz e o que não faz, o suficiente para não comprar promessa nem recusar oportunidade por receio.
Nenhuma dessas competências é técnica. Todas são de gestão, e ainda são pouco ensinadas a quem mais precisa delas.
Por que dar nome a essa função
Quando uma responsabilidade não é nomeada, tende a ficar sem orçamento próprio, sem formação específica e sem sucessão planejada. Dar nome ajuda a enfrentar os três pontos de uma vez. O CPPO não precisa ser um cargo novo: pode ser uma atribuição reconhecida em cargos que já existem, com lugar na governança da transformação digital e uma trilha de formação desenhada para ela.
Onde o programa começa
Há uma geração de dirigentes públicos brasileiros que conduz políticas de alcance nacional e responde por serviços que milhões de pessoas usam. Quando essas lideranças e a tecnologia passam a decidir juntas, a transformação ganha direção e impacto.
É com o CPPO, ao lado da TI, que o NEXT C-LEVEL começa.